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Estudo publicado em revista internacional indica que descontrole do desmatamento pode levar à emissão de 1,8 bilhão de toneladas em 2030 na Amazônia e no cerrado, estourando promessa de Paristemer e ruralistas

A aliança do governo de Michel Temer com os ruralistas no Congresso pode ter salvo o presidente de ser investigado no STF por corrupção, mas deixou um monte de mortos pelo caminho. Um deles pode ser a meta brasileira de redução das emissões de gases que causam o aquecimento global, conforme sugere um estudo publicado nesta segunda-feira (9).

Um grupo de pesquisadores do Rio de Janeiro, de Minas Gerais e de Brasília mostrou no periódico Nature Climate Change como as barganhas políticas feitas desde 2016 afetam o controle do desmatamento na Amazônia e no cerrado. No pior caso, isso faria as emissões de gases-estufa por desmatamento retornarem aos patamares do século passado. Dessa forma, o Brasil estouraria em 2030 todos os limites de emissões compatíveis com o cumprimento de sua meta no acordo do clima de Paris.

Só por desmatamento o país emitiria, nesse cenário, 1,8 bilhão de toneladas líquidas de gás carbônico em 2030 – um valor 50% maior do que a meta indicativa da NDC, o compromisso brasileiro em Paris, que é de 1,2 bilhão de toneladas naquele mesmo ano.

No cenário mais provável, a conta da aliança com os ruralistas sobraria para outros setores, como a indústria e os transportes. E seria salgada: para o Brasil se manter na meta em 2030, o restante da economia teria de desembolsar US$ 2 trilhões (mais que valor total do PIB em 2017) para adotar tecnologias ainda imaturas ou não testadas e zerar suas emissões, de forma a compensar o carbono emitido a mais no setor florestal.

Para fazer o estudo, o grupo liderado por Roberto Schaeffer, da COPPE-URRJ, e Britaldo Soares-Filho, da Universidade Federal de Minas Gerais, usou modelos de computador que fazem simulações de como o uso da terra evolui no território e de como as relações entre uso da terra e energia se desenvolvem em resposta a contextos diversos. Para isso, eles alimentaram o modelo com as taxas de desmatamento e as condições de governança ambiental em três momentos: antes de 2005, quando não havia controle sobre a devastação das florestas; entre 2005 e 2012, quando medidas foram adotadas e a taxa de desmatamento caiu; e entre 2012 e 2017, quando a tendência de queda se rompeu na esteira do enfraquecimento do Código Florestal e da crise política.

Nos últimos dois anos, o quadro de governança pós-2012 se agravou. Para tentar aprovar o impeachment, depois reformas impopulares, depois para salvar a própria pele, Michel Temer fez uma série de concessões à bancada ruralista, que representa cerca de 40% dos votos na Câmara dos Deputados: a grilagem de terras de até 2.500 hectares foi legalizada, a demarcação de terras indígenas foi congelada, unidades de conservação tiveram propostas de redução de limites e o licenciamento ambiental passou a ser ameaçado por vários projetos de lei.

Os ruralistas não ganharam tudo ainda. “Mas, para o desmatamento, a sinalização negativa que o governo dá tem uma importância enorme”, diz Raoni Rajão, da UFMG, coautor do estudo.

Com base nessas informações, os modelos produziram três cenários. Num deles, a governança ambiental é fortalecida, algo que soa pouco factível hoje. Neste caso, o desmatamento do cerrado alcança 3.794 km2 em 2030, comparado aos mais de 9.484 km2 hoje. O da Amazônia cairia dos atuais 7.000 km2 para 3.920 km2.

No cenário intermediário, considerado pelo grupo o mais provável, o desmatamento no cerrado vai a 14.759 km2, e o da Amazônia, a 17.377 km2 em 2030. No pior cenário, a governança ambiental é totalmente abandonada e o desmatamento anual retorna aos níveis mais altos: 18.517 km2 no cerrado e 27.772 km2 na Amazônia. O vídeo abaixo mostra a evolução do desmatamento até 2050 no pior cenário.

O carbono emitido por perda de florestas e savanas nos três cenários foi comparado com o chamado “orçamento de carbono” do Brasil, ou seja, quanto CO2 o país ainda pode emitir para cumprir sua parte na meta do Acordo de Paris de estabilizar o aquecimento da Terra abaixo de 2oC em relação à era pré-industrial. Dado o tamanho da economia e da população do Brasil, esse orçamento foi calculado em 24 bilhões de toneladas líquidas de CO2 equivalente entre 2010 e 2050. Como já emitimos 4,6 bilhões de 2010 a 2017, o orçamento remanescente é de 19,4 bilhões de toneladas.

No cenário mais provável, o intermediário, as emissões acumuladas apenas por desmatamento entre 2010 e 2030 chegam a 16,3 bilhões de toneladas. O Brasil só consegue se manter dentro do orçamento de carbono se impuser ao setor industrial e energético as tais tecnologias mais caras a custo de US$ 2 trilhões.

A NDC também vai para o vinagre já no cenário intermediário. “O compromisso assumido no Acordo de Paris é de chegar a 2030 com 1,2 bilhão de toneladas de emissões no conjunto da economia. Mas no cenário tendencial somente as emissões por desmatamento já alcançariam esse valor”, afirma Rajão.

O cenário mais grave é um alerta, mas por ora não é o mais provável, já que o Ministério do Meio Ambiente continua agindo para controlar a devastação. No governo Temer, paradoxalmente, o orçamento do Ibama para a fiscalização ambiental foi incrementado em relação ao do segundo mandato de Dilma Rousseff, com dinheiro doado pela Noruega.

Na semana passada, o órgão anunciou que concluirá neste mês a Operação Panopticum, que consiste no envio de 25,2 mil cartas e e-mails a proprietários de terra de 59 municípios com risco de desmatamento. O objetivo é informar os proprietários de que eles estão sendo monitorados por satélite e serão punidos em caso de desmatamento ilegal.

“O Ibama continua melhorando, mas no caso da Amazônia, isso vai diminuir no máximo um terço do desmatamento total, que está em terras privadas que já estão no Cadastro Ambiental Rural”, disse Rajão, que concebeu a Operação Panopticum juntamente com Jair Schmitt, diretor de Políticas de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente. Segundo ele, é mais difícil fazer esse controle em áreas privadas fora do CAR, em unidades de conservação, terras devolutas, terras indígenas e assentamentos.

“O estudo mostra que o Brasil está praticando hoje um tipo de política do século 19, o que faz com que talvez tenhamos que recorrer a tecnologias do século 21, muitas delas ainda não maduras ou comercialmente disponíveis, para compensar o aumento das emissões de gases de efeito estufa advindas do aumento do desmatamento decorrentes desta política”, disse Roberto Schaeffer.

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O turbilhão gerado pelas sucessivas tentativas de soltar o ex-presidente Lula ao longo deste domingo causa "estragos" ao explicitar uma guerra jurídica e ideológica que é "ruim para o Judiciário e ruim para o cidadão", afirma Gilson Dipp, ex-ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

luiz inácio
Durante o domingo, houve três mandados de soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva

Em entrevista à BBC News Brasil, Dipp afirma que o desembargador Rogerio Favreto, plantonista do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), extrapolou sua competência ao deliberar em regime de urgência sobre a soltura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, uma matéria "de alta indagação que está sendo discutida nas cortes superiores".

"A decisão não está incorreta, já que ele (na competência de desembargador plantonista) pode dar uma liminar e o juiz ter que cumprir. Mas em um pedido desta envergadura, que não traz novidades por tratar de um réu que está preso há bastante tempo, e sem fato novo, a posição do desembargador foi implausível", considera Dipp, que já foi presidente do TRF-4.

Na noite deste domingo o presidente do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, desembargador Carlos Eduardo Thompson Flores, tomou decisão que, na prática, mantém o ex-presidente Lula na prisão. O despacho ocorre após o desembargador plantonista, Rogerio Favreto, determinar três vezes ao longo do dia a soltura de Lula. O ex-presidente e pré-candidato à Presidência está preso em Curitiba desde abril, cumprindo sentença após condenação em segunda instância pelo TRF-4 a 12 anos e um mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, relacionado ao caso do tríplex de Guarujá.

"É temerário um plantonista de fim de semana decidir sobre uma matéria que já vem sendo contemplada há muito tempo por tribunais superiores. Isso contribui para um desgaste muito grande do Judiciário, das instâncias inferiores às superiores", afirma o jurista.

Para Dipp, o roteiro de mandos e desmandos deste domingo levou a um momento "impensável no Judiciário", uma sequência de decisões incoerentes "que nunca vi em minha vida até agora".

"É o caos jurídico e a politização do Judiciário de forma exacerbada. Não importa quem tenha razão", considera Dipp. A seu ver, a contradição entre decisões tomadas por ministros do STF está se refletindo nas instâncias inferiores. "O filho imita o pai."

Dipp afirma, no entanto, que as tentativas da defesa de um réu de entrar com pedidos em dias de plantonistas tidos por mais "garantistas" e voltados aos direitos do cidadão, na expectativa de que emitam decisões mais favoráveis ao réu, "fazem parte do jogo" e são "legítimas" como estratégia jurídica.

Em março, a condenação de Lula pelo juiz Sérgio Moro na primeira instância foi confirmada por três desembargadores do TRF-4, e o STF negou o pedido de habeas corpus a Lula até que o processo transitasse em julgado e passasse por todos os recursos cabíveis antes da execução da sentença de prisão. Na última sexta-feira, os deputados federais Wadih Damous, Paulo Pimenta e Paulo Teixeira, do PT, apesentaram pedido de habeas corpus no TRF-4, contemplado no domingo pelo desembargador Rogério Favreto.

Apesar de ser favorável à interpretação de que a sentença só deveria ser executada após trânsito em julgado, entretanto, Dipp frisa tratar-se de matéria que tem sido longamente examinada, contemplada pelo STJ e pelo STF, e considera que Favreto "desbordou" de sua competência.

"Ele (Favreto) não deveria ter entrado nesse mérito. Isso causa um tumulto jurídico e uma guerra ideológica no direito penal. É uma politização do Judiciário levada ao extremo", diz, ressaltando a importância de decisões judiciais se manterem coerentes e não despertarem dúvidas sobre se devem ou não ser cumpridas.

Após o primeiro despacho de Favreto, o juiz Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal em Curitiba, revidou com um despacho afirmando que o desembargador não teria competência para mandar soltar o ex-presidente, gerando um impasse.

Embate e confusão

As primeiras notícias sobre a possível libertação de Lula surgiram por volta de meio dia deste domingo, com base num despacho publicado horas antes: às 9h, o desembargador plantonista José Favreto decidiu favoravelmente a um pedido de habeas corpus formulado pelos deputados petistas Wadih Damous (RJ), Paulo Teixeira (SP) e Paulo Pimenta (RS). Os três apresentaram o pedido na noite da última sexta-feira.

Pouco antes das 13h, o juiz federal Sérgio Moro, da 13ª Vara Federal em Curitiba publicou um despacho no qual dizia não ser papel de Favreto decidir a respeito de Lula. Minutos depois do despacho de Moro, Favreto voltou à carga, ordenando à Polícia Federal que soltasse lula imediatamente. Perto das 16h, João Gebran atendeu ao pedido de Moro e falou nos autos sobre o caso. Relator da Lava Jato na 2ª Instância, Gebran argumentou que, como a decisão de prender Lula era da 8ª Turma do Tribunal (formada por ele, Victor Laus e Leandro Paulsen), não cabia a Favreto mandar soltar o ex-presidente Lula.

Então, às 16h12, Favreto lançou uma terceira decisão com o objetivo de soltar o ex-presidente Lula.

"Ele (o Favreto) está se expondo, porque corre o risco de a ordem não ser cumprida, mas a essa altura só lhe resta ir até o fim mesmo", diz Dipp, afirmando que o não-cumprimento da ordem judicial gera uma situação insólita, já que, em sua visão, uma ordem judicial é para ser cumprida ou derrubada imediatamente pelos recursos cabíveis.

"Um desembargador com a mesma hierarquia não pode reformar a decisão de um colega de plantão. Ele (Gebran Neto) teria que esperar até segunda, quando cessa o plantão", diz. "Mas aí o Lula poderia ser solto. O Ministério Público, o TRF-4, a Polícia Federal querem o Lula solto?" , questiona.

Dipp afirma também que, no imbróglio observado nas decisões judiciárias neste domingo. o próprio Moro extrapolou sua competência ao questionar o desembargador. "Juiz em primeiro grau não tem que discutir competência do tribunal. Ponto. Quem tem que dizer se o desembargador extrapolou suas competências ou não são os órgãos superiores a ele", afirma.

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Elas operam em dezenas de países e são reconhecidas pela excelência em tecnologia. Mas também estão sendo acusadas de participar de um cartel responsável por fraudar licitações na área da saúde no Rio de Janeiro, num esquema criminoso que teria movimentado R$ 1,5 bilhão.

SAÚDE
Assim como nas investigações do Mensalão e da Lava Jato, o Ministério Público identificou a atuação de diferentes "núcleos"- político, econômico e operacional- no esquema de corrupção da área da saúde

Investigação que surgiu como desdobramento da Operação Lava Jato aponta que mais de 30 grandes empresas participariam do "Clube do Pregão Internacional", entre as quais gigantes multinacionais como a Philips e a Johnson & Johnson. Constam da lista companhias alemãs, norte-americanas e holandesas, países que estão entre as 20 nações com menor percepção de corrupção, conforme o ranking de 2016 da ONG alemã Transparência Internacional.

Já o Brasil está na em 79º lugar entre 176 países. O ranking leva em consideração a percepção que a população tem sobre a corrupção entre servidores públicos e políticos. Quanto melhor um país está situado no ranking, menor é a percepção da corrupção entre os nacionais.

As empresas estrangeiras investigadas pelo Ministério Público teriam formado um cartel para fraudar e cobrar sobrepreço em licitações da Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro e do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia Jamil Haddad (Into), segundo os procuradores responsáveis pela Operação Fatura Exposta, deflagrada na última quarta-feira.

Esta não é a primeira vez que empresas multinacionais de países desenvolvidos são investigadas na Lava Jato - uma das primeiras linhas de investigação girou em torno de contratos da Petrobras com a holandesa SBM Offshore. A empresa foi alvo da operação Sangue Negro da Polícia Federal em 2015, e mais tarde seu representante no Brasil admitiu ter pagado propina para conseguir contratos com a Petrobras.

Mas como explicar a aparente contradição entre a atuação dessas empresas em seus países com o que vem sendo investigado no Brasil?

"Desconto de imposto para quem paga propina"

O representante no Brasil da Transparência Internacional, Bruno Brandão, destaca que, por muitos anos, os países desenvolvidos chegavam a incentivar a prática de corrupção por parte de suas empresas em países pobres e em desenvolvimento, enquanto punia com rigor irregularidades praticadas em seus territórios.

"Países europeus como a Alemanha e a França davam até incentivos fiscais para o pagamento de suborno no exterior. As empresas poderiam deduzir do imposto gastos com 'facilitação', um eufemismo para suborno. Você poderia registrar nos livros (contábeis) o pagamento de suborno em países em desenvolvimento", disse ele à BBC News Brasil.

Em inglês, este tipo de pagamento é chamado de "facilitating payment", e é considerado diferente de propina - embora a diferença entre uma coisa e outra seja nebulosa. "Havia uma cobrança de comportamento ético no território nacional, mas uma cumplicidade (com a corrupção) quanto à atividade das empresas no exterior", diz ele.

De acordo com a advogada criminalista e especialista em conformidade Sylvia Urquiza, a prática de abater dos impostos os gastos com propina continuou até recentemente, nos anos 2000. "O pensamento dos governos era: 'só vamos conseguir expandir os negócios em países dominados pela prática de corrupção se pagarmos propina também'", diz ela.

Em 1997, os países-membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) assinaram um acordo antipropina (OECD Anti-Bribery Convention), comprometendo-se a evitar a prática - embora não a tenham proibido totalmente, explica Urquiza. A convenção entrou em vigor em 1999, e foi complementada em 2009.

Nos EUA, diz a especialista, existe uma lei contra a corrupção no exterior (conhecida pela sigla em inglês SCPA) desde 1977. Mas só no começo dos anos 2000 o país começou a aplicar a legislação de forma mais sistemática, especialmente para empresas das áreas de tecnologia da informação e de saúde - pois estes setores estão entre os que mais fecham contratos com o poder público.

Mudanças ainda tímidas

Segundo Bruno Brandão, por mais que hoje as legislações dos países tenham evoluído, ainda há resquícios da cultura de que seria aceitável praticar irregularidades em nações com menos fiscalização e maiores índices de corrupção.

O ex-ministro da Controladoria-Geral da União e especialista em compliance Jorge Hage lembra que o período no qual, em tese, teriam ocorridos os crimes desvendados pela operação no Rio (a partir de 1996) são anteriores ao endurecimento no combate à corrupção no Brasil, e à convenção da OCDE.

"As mudanças na legislação brasileira (como a Lei Anticorrupção e a Lei das Organizações Criminosas) são muito recentes. Ambas as leis são de 2013. E a própria Lava Jato começou em 2014. Logo, não chega a surpreender que essas empresas globais, à época desses fatos, ainda atuassem nos moldes tradicionais, apostando na impunidade nos países periféricos", disse o ex-ministro à BBC Brasil.

Hage ressaltou que fala em tese, pois não teve acesso aos dados da investigação para além do que a imprensa noticiou.

Segundo o diretor do Instituto Ethos, Caio Magri, o combate à corrupção depende também de mudanças culturais nas empresas que, infelizmente, costumam ocorrer lentamente.

"A GE já teve outros casos (de conduta ilegal) mais complexos e maiores envolvendo a empresa nos Estados Unidos e na Europa, que provocaram mudanças e transformações na empresa. Mas ainda não conseguiram atingir a toda organização", nota ele.

Como funcionaria o esquema no Rio?

A nova fase da Operação Fatura Exposta foi deflagrada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público na quarta-feira. Prendeu oito executivos, entre eles Daurio Speranzini Jr, CEO da General Electric Healthcare para a América Latina. Speranzini é investigado por fatos ocorridos quando atuava como executivo da Philips.

Propinas teriam sido pagas pelas empresas a governantes e funcionários públicos do Rio de Janeiro entre 1996 e 2017.

Assim como nas investigações do Mensalão e da Lava Jato, o Ministério Público identificou a atuação de diferentes "núcleos"- político, econômico e operacional- no esquema de corrupção da área da saúde.

O núcleo operacional seria liderado pela empresa de equipamentos médicos Oscar Iskin, do empresário brasileiro Miguel Iskin, que também foi preso. Ele seria responsável por fazer a ligação entre o setor público (chamado de núcleo político, pelo MPF) e empresários integrantes do cartel (núcleo econômico), para direcionar pregões públicos de compra de equipamentos médicos.

Empresas concorrentes que não faziam parte do cartel seriam propositadamente desclassificadas das concorrências, a partir da inclusão de cláusulas na licitação que favoreciam especificamente as integrantes do grupo criminoso.

Segundo o Ministério Público, as multinacionais, que integravam o núcleo econômico do esquema, pagavam uma comissão de pelo menos 10% do valor do contrato a Iskin, para garantir as vitórias no pregão, e cobravam sobrepreço na oferta dos equipamentos para financiar a comissão e a propina paga aos agentes públicos que aderiram ao esquema.

"Esses atos de ofício eram comprados com o pagamento de vantagens indevidas milionárias, as quais eram custeadas com base na arrecadação de valores com as empresas beneficiárias das licitações, seja por meio de pagamento de 'comissões' no exterior (correspondentes a cerca de 40% dos contratos), seja por meio do recolhimento no Brasil de valores entre 10% e 13% dos contratos firmados pelas empresas do cartel", diz o Ministério Público.

O que dizem os investigados

A General Electric, cujo CEO no Brasil foi preso, afirmou à BBC News Brasil que as acusações contra Daurio Speranzini Jr referem-se a um período em que o executivo ainda não trabalhava para a empresa. "A GE atua com base nos mais altos padrões de integridade, ética e transparência. E está à disposição das autoridades para qualquer eventual esclarecimento", disse.

A Philips, citada nas investigações como integrante do cartel, informou que está "cooperando com as autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos quanto às investigações em andamento".

"A política da Philips é realizar negócios de acordo com todas as leis, regras e regulamentos aplicáveis. Quaisquer investigações sobre possíveis violações dessas leis são tratadas muito seriamente pela empresa."

A Johnson & Johnson Medical Devices, que também seria parte do esquema, conforme o Ministério Público, afirmou que "segue rigorosamente as leis do país e está colaborando integralmente com as investigações em andamento".

O advogado de Miguel Iskin, dono da Oskar Iskin, negou que ele tenha cometido crimes.

"A Oskar Iskin está com as atividades paralisadas, desde 2016. Não houve licitação vencida pela Oskar Iskin na qual o preço não fosse o de mercado, ou seja, o correto. Não houve licitação em que a Oskar Iskin tenha vencido em que exatamente o equipamento contratado não tenha sido entregue", disse o seu advogado Alexandre Lopes.

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Cadeiras enfileiradas, lágrimas de emoção, discursos de superação... Todos os elementos de uma formatura estavam lá. Mas aquela não era uma cerimônia comum, e nem em um lugar trivial: era o encerramento, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, do curso da primeira turma do RenovaBR, uma espécie de "escola" para 133 novatos na política.

formandos
Bolsistas do RenovaBR concluíram formação em Brasília e agora encaram a entrega de um trabalho de conclusão de curso e a campanha eleitoral

Desde o início do ano, os alunos do RenovaBR - chamados no programa de "lideranças" - participam de aulas presenciais e online sobre temas como marketing político, segurança pública e transparência. Para chegar ali, passaram por um processo seletivo que começou com mais de 4 mil candidatos. Uma vez escolhida a primeira turma, passaram a receber bolsas mensais de R$ 5 mil a R$ 12 mil (o valor varia de acordo com o custo de vida na cidade de residência).

Autodenominado um "instituto de formação de novas lideranças políticas" e uma "iniciativa da sociedade, para a sociedade", o RenovaBR foi idealizado pelo empresário Eduardo Mufarej e tem como entusiastas o apresentador de TV Luciano Huck e o também empresário Abílio Diniz.

A ideia é "preparar gente comprometida e realizadora para entrar na política", como diz o manifesto online do RenovaBR, que buscou selecionar "pessoas com diferentes ideias, mas que têm em comum a crença de que política é lugar de honestidade, diálogo e dedicação".

O financiamento vem de pessoas físicas e organizações filantrópicas - os nomes dos doadores devem ser divulgados até julho e o montante arrecadado, até o fim do ano.

A etapa final do RenovaBR teve lugar em um hotel de Brasília. Ali, os bolsistas dividiram quartos e participaram de palestras em clima de conferência - câmeras ligadas, cafezinho nos cantos e banners com a hashtag #OBrasilTemJeito. Em atividades externas, também foram de ônibus fretados conhecer o Congresso Nacional e ouvir palestras com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso e os senadores Ana Amélia e Cristovam Buarque.

Maioria estreia nas urnas

Após alguns meses de teoria, a aproximação das eleições, em outubro, indica que está chegando a hora de colocar o preparo no curso em prática. Mas, antes do registro oficial das candidaturas - previsto para julho e agosto -, as "lideranças" são, ainda, pré-candidatos.

Para 67% dos bolsistas, 2018 será ano da primeira eleição. Outros já participaram de pleitos, mas nunca assumiram cargos eletivos - uma regra para estar no RenovaBR.

Por ter 21 anos, o estudante de Direito Julio Lins por pouco não conseguiu se candidatar. Essa é a idade mínima, segundo a Constituição, para que uma pessoa possa ser eleita ao cargo de deputado estadual - ao qual Lins irá disputar filiado ao Partido da Mobilização Nacional (PMN), pelo Amazonas. Ele é o bolsista mais novo do RenovaBR.

O universitário relata, com orgulho, ter organizado a primeira manifestação, "pela defesa da educação", aos 15 anos, e ter dado os primeiros passos políticos no movimento estudantil. Também diz ter liderado, em seu Estado, protestos pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff - que foi retirada do cargo em 2016.

Apesar do seu passado - e, a depender das urnas, de seu futuro -, Lins diz que ambiciona ser diplomata e escritor, mas que vê a política como um passo importante.

"A política me tirou muito, mas não vou mentir que ela é a minha paixão", diz o jovem. "Não quero isso (a política como carreira) para a vida toda, na verdade enxergo tudo isso como uma contribuição que quero deixar".

Mas Lins diz não ter como objetivo, necessariamente, ganhar a eleição.

"Quando a gente coloca a vitória como objetivo, acho que ficamos mais sujeitos a alguns erros da velha política. Quero pautar as eleições com os meus princípios" diz o pré-candidato, que se define como "libertário" e foi porta-voz do movimento Vem pra Rua entre 2015 e 2016.

Também pré-candidata de primeira viagem, a arquiteta Juliana Sales, 27 anos, teve os contatos iniciais com a política trabalhando em setores de urbanismo no Executivo e Legislativo em Minas Gerais, onde agora quer ocupar uma cadeira como deputada estadual pelo Partido Humanista da Solidariedade (PHS). Apesar da filiação, ela diz ter acordado com o partido se portar como um quadro independente, uma vez que a legislação não permite as chamadas candidaturas avulsas (sem filiação partidária).

"Eu via que dava para fazer diferente, com menos recursos e mais eficiência... No Executivo, principalmente, eu via que a distribuição de cargos com perfis políticos, e não técnicos, inviabilizavam um projeto importante", lembra Sales, que ainda não sabe se quer concorrer a outras eleições no futuro.

A arquiteta investe desde 2016 em vídeos nas redes sociais com motes como "De onde veio essa tal Política? E esse ser chamado Político?" e "Você sabe o que é Reforma Política?". Ela, como talvez a totalidade das "lideranças" do RenovaBR, contará com uma plataforma de crowdfunding para seu financiamento e com as mídias sociais para divulgação - as atividades do programa em Brasília eram rotineiramente registradas pelos futuros candidatos em selfies e transmissões ao vivo nas redes.

Nas aulas e nas conversas de corredor, parece consenso entre os bolsistas contar com pouco ou nenhum acesso aos fundos eleitoral e partidário dentro de suas siglas - isso ficará a cargo de cada partido.

"O desafio de um cidadão comum entrar na política é muito grande. Os caras têm toda uma estrutura, e a gente está entrando com a nossa vontade e valores para concorrer com esses caras", diz Sales, que conta por enquanto com uma equipe de voluntários.

'Zerar a pedra'

Como Lins e Sales, 44% dos participantes do RenovaBR pretendem se candidatar ao cargo de deputado estadual; 49% visam ser deputados federais. Alguns pensam mais alto: três querem ser senador e um, governador.

Após abril, prazo para filiação partidária, também ficou mais claro o quadro de divisões ideológicas da turma - que se dividiu em 22 siglas, mas concentrou-se em quatro partidos: Rede (19%); Novo (12%); PPS (12%); e PSB (10%). Partidos que ocuparam o Planalto nas gestões mais recentes tiveram menor adesão: PSDB (7%), MDB (1%) e PT (0).

Há participantes de todos os Estados. Segundo a organização do programa, 76% são homens e 24% mulheres; 67% são brancos e 33% pretos, pardos e indígenas. Em nível de escolaridade, um tem o ensino fundamental completo; 15% concluíram o ensino médio; 68% o ensino superior; e outros 14% fizeram pós-graduação.

Formado em administração, o empresário Vinícius Poit, de 32 anos, quer usar sua experiência profissional para pensar em seus próximos passos na política - ele pretende concorrer a deputado federal pelo partido Novo.

"Montei um 'business' ('negócio', em tradução livre) de 'turn around', de reestruturação de empresas, de pegar uma empresa quebrada e arrumar. Brinco que agora a empresa quebrada é o Brasil", diz o paulista.

Ele diz que cresceu em uma família imbuída da "cultura da meritocracia" e, por ter chegado a um ponto em que diz já ter construído um "legado" como empresário, vê na política não uma carreira - mas uma missão.

"Meu sonho na política é de longo prazo, no sentido de servir ao povo", diz, defendendo o Estado mínimo e citando Margaret Thatcher, ex-primeira-ministra britânica, como "musa".

Ele, como também é orientação do Novo, é contrário à existência dos fundos eleitoral e partidário.

"'Zera a pedra', como a gente fala no mercado de trabalho. Vai acabar um monte de partido e a gente vai renovar. Vão nascer outros partidos, de quem acredita."

Eleição e ego

Na rota da preparação para a incursão pela política, as "novas lideranças" foram alertadas de armadilhas da empreitada.

Em sua palestra, o ex-vereador por São Paulo e especialista em sustentabilidade empresarial Ricardo Young fez uma recomendação "de coração": "Estabeleçam uma porta de saída da política".

"Dois mandatos é o máximo na mesma função. Com pouquíssimas exceções, fazer política como carreira é se mediocrizar".

"O processo eleitoral é um processo de reafirmação do ego. Comecem a perceber se vocês não estão se olhando mais no espelho do que deveriam, ou se estão fazendo mais selfies do que antes".

A advogada Carla Karpstein, por sua vez, especialista em direito eleitoral, cuidou dos preparos mais práticos e respondeu a perguntas sobre como abrir contas eleitorais e CNPJs de campanha, emitir recibos eleitorais, ou definir se distribuir cartões de visita ou abrir um site na pré-campanha configuram irregularidade.

Além de professores convidados, o RenovaBR conta com uma equipe fixa de quatro "professores assistentes". Eles estruturam o currículo do curso, criam exercícios preparatórios e posteriores aos módulos e dão aulas. Também avaliarão os trabalhos de conclusão de curso (TCC) a serem entregues pelos bolsistas.

Entre os deveres que tiveram de ser feitos pelas "lideranças" esteve um teste de "resiliência ética", desenvolvido por uma startup especializada na prevenção de fraudes e assédio em organizações. O método inclui questões opinativas - envolvendo situações simuladas de suborno e informações confidenciais, por exemplo -, análise de "microexpressões" dos participantes e a avaliação de um especialista.

Segundo o administrador público Rodrigo Cobra, um dos professores assistentes, membros da equipe do RenovaBR foram aos Estados Unidos durante o preparo do programa, visitando cursos de formação de candidatos da Universidade George Washington e na Universidade de Virgínia.

Os professores assistentes também se dividem com mentores das "lideranças" - acompanhando por telefone a rotina e o desenvolvimento dos bolsistas no curso.

"Acabamos fazendo um pouco o papel de psicólogos deles. Para a maioria, é a primeira eleição: é um desafio que gera medo de enfrentar a hegemonia política. Mas, ao longo do tempo, vemos que a técnica dá força para vencer esse desafio", diz Cobra.

Ex-ministro na sala de aula

O espírito da busca por "renovação" também esteve presente na presença, entre os "formandos", de um ex-ministro que pediu demissão e se viu em uma encruzilhada após um dos episódios marcantes do início do governo Michel Temer.

É o diplomata Marcelo Calero, que era ministro da Cultura, em 2016, quando deixou o cargo após relatar pressão do então ministro da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, e de Temer para a liberação de uma obra em Salvador - embargada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Agora, ele é pré-candidato a deputado federal pelo Partido Popular Socialista (PPS) e diz tirar, do RenovaBR, o aprendizado sobre como planejar uma campanha eleitoral exitosa.

"Fui confrontado com o que há de pior na política brasileira, que é a corrupção. Diante daquela situação, eu tinha dois caminhos: ou ia tocar a minha vida, ou seria um agente de mudanças. Eu decidi ser um agente de mudanças e me aproximei de movimentos cívicos", diz Calero, vinculado a outros movimentos que pregam a renovação política como a Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (RAPS), o Agora e o Livres (com origem no Partido Social Liberal, o PSL).

"A impressão que a gente tem é que esses figurões não se intimidam. Os mesmos esquemas continuam acontecendo. Veja o que aconteceu comigo no caso Geddel. Lembro que, na medida em que ele e o Temer avançavam na pressão, eu via os jornais falando sobre o caso Odebrecht e me perguntava: 'Não é possível, eles estão lendo o mesmo jornal que eu tô lendo?'. Brasília é uma ilha da fantasia, isso aqui é uma corte", diz o diplomata, justificando sua incursão na política com uma referência a Santo Inácio, que segundo Calero dizia que "pior do que o arrogante é que aquele que não coloca seus dons a serviço da comunidade".

"O episódio que o Calero protagonizou é tipicamente o episódio de que não tem espaço para gente totalmente decente e honesta no Brasil", disse o ministro do STF Luís Roberto Barroso, que também falou aos bolsistas do RenovaBR em Brasília.

Barroso também defendeu a reforma política, segundo ele uma "agenda inacabada no Brasil". O ministro criticou o presidencialismo - uma "usina de problemas" - e foi aplaudido quando defendeu o sistema distrital misto.

"Hoje, os eleitores em 15 dias já não lembram mais em quem votaram nas eleições proporcionais. Se eu fizesse essa pergunta aqui, diria que 90% não lembram. E sendo absolutamente sincero, "yo tampoco" ("eu também não", em tradução livre do espanhol). A cidadania não consegue acompanhar sua representação política."

Neutralidade ideológica?

Eduardo Mufarej, que é presidente do Conselho de Administração da empresa Somos Educação e sócio da Tarpon Investimentos e um dos idealizadores da iniciativa, admite que o RenovaBR se posiciona em questões pontuais, em pautas que tenham ligação direta com o tema da renovação política. Mas nega haver alguma filiação ideológica do programa.

"A gente não quer ancorar ninguém em nenhum partido, é uma decisão da pessoa. É um programa focado nos CPFs", diz ele.

Por outro lado, alguns dos primeiros candidatos "formados" pelo Renova BR sinalizam que a iniciativa não escapa da percepção de que poderia estar ligada a interesses de determinados grupos.

O servidor público e pré-candidato a deputado federal pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT) Derson Maia conta ser frequentemente interpelado sobre a influência do empresariado no programa por estudantes. Maia vem de uma trajetória no movimento estudantil e defende pautas das periferias e do movimento negro - até por isso, diz planejar arrecadar fundos em eventos que se relacionam culturalmente com estas origens, como sambas e feijoadas.

"Tento explicar que é importante ouvir, ocupar esse espaço, sentar com pessoas que são tão diferentes de mim", diz o pré-candidato, também presidente do movimento Frente Favela Brasil. "A gente fica com o radar para não reproduzir velhas práticas da política. Na verdade, todo mundo tem o seu posicionamento e sabemos que ele não vai mudar, mas em algumas questões mínimas, conseguimos compor. Por exemplo, transparência: quem aqui vai ser contra a transparência? Isso não tem direita nem esquerda".

Próximos passos

O clima entre os bolsistas era amigável, incluindo brincadeiras - até mesmo implicâncias ideológicas.

"Lula livre!", brincou uma "liderança" no intervalo de uma das palestras.

"Lula livre daqui a 12 anos", retrucou outro bolsista, fazendo referência ao tempo de prisão ao qual o ex-presidente foi condenado.

Como nos rituais das escolas em que os alunos escrevem mensagens nos uniformes nos últimos dias de aula, também circulou em Brasília uma bandeira do Brasil em que os "aprendizes de político" escreveram mensagens como "Coragem", "Um futuro melhor" e "Muita luz".

No encerramento do curso da Praça dos Três Poderes, durante o pôr do sol, muitas "lideranças" deixavam uma lágrima ou outra escorrer enquanto a equipe do RenovaBR fazia agradecimentos e discursos.

De acordo com Mufarej, foi a conclusão de uma iniciativa que ainda dá os primeiros passos. Os próximos devem incluir uma nova turma do curso de formação em 2019 e um preparo para aqueles que forem eleitos neste ano.

"Congressista em primeiro mandato normalmente fica meio perdido, até tem caso de depressão. Chegam com uma vontade de mudar o mundo e têm um choque de realidade", diz o empresário.

O RenovaBR também planeja dar assistência a quem não for eleito em 2018.

"Tem que ter uma gestão de expectativa, porque é muito difícil. Vamos imaginar uma pessoa que vai e volta falando 'nunca mais quero isso'. O Brasil perdeu", diz.

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Quando Sydney Sanches presidia o Supremo Tribunal Federal (STF) em 1992, o país não vivia momentos tranquilos. Era época do impeachment do ex-presidente Fernando Collor e ele teve, inclusive, que lidar com falsas ameaças de bomba na Corte durante aquele processo.

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Sem citar nomes, Sanches crítica duramente o fato de alguns ministros não estarem aplicando o entendimento da maioria de autorizar a prisão antecipada

Ainda assim, nos 19 anos que esteve no STF, de 1984 (último ano da Ditadura Militar) a 2003 (primeiro ano do governo Lula), Sanches conta que nunca vivenciou momento parecido com o que se passa hoje na Corte, com conflitos explícitos entre os ministros. À BBC News Brasil, ele disse estar "perplexo" e "surpreso" com os últimos acontecimentos e considerou as ofensas pessoais trocadas em julgamentos uma "mácula na história do Supremo".

O principal motivo de tensão hoje, diz ele, é a disputa em torno da possibilidade de prisão em segunda instância, ou seja, antes do trânsito em julgado, quando se encerram todos os recursos possíveis.

O cumprimento antecipado da pena foi permitido com placar apertado de 6 a 5 em fevereiro de 2016, no julgamento de um habeas corpus com repercussão geral (válido para todos os processos do país). Depois, a decisão foi confirmada em uma liminar (provisória), dentro de uma ação direta de constitucionalidade (ADC) que tentava reverter a primeira decisão. Acontece que, no ano seguinte, o ministro Gilmar Mendes mudou de ideia e parte dos que ficaram derrotados nos primeiros julgamentos - Marco Aurélio, Rosa Weber, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski, Celso de Melo - passou a cobrar o julgamento definitivo da ADC para que a prisão após segunda instância volte a ser proibida.

Sem citar nomes, Sanches critica duramente o fato de alguns ministros não estarem aplicando o entendimento da maioria de autorizar a prisão antecipada. Ele defende a decisão da presidente Cármen Lúcia de não trazer novamente a ação para análise dos onze ministros. Na sua visão, a Corte não deve reavaliar em tão pouco tempo uma questão constitucional, que já foi decidida com repercussão geral.

"Eu nunca vi uma manipulação tão alta para se rediscutir matéria", respondeu, ao ser questionado sobre a crítica de Marco Aurélio de que a presidente manipula a pauta.

O ex-presidente do STF atribui a pressão sobre a ministra ao caso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, detido há mais de 80 dias em Curitiba devido à condenação no caso Tríplex do Guarujá - enquanto juristas contrários à prisão em segunda instância dizem que não se trata apenas do petista, mas de respeitar a presunção de inocência de todos os réus.

"Será que está certo pressionar para conseguir colocar em pauta uma matéria que já foi decidida só porque isso vai beneficiar uma certa pessoa? É dramática a situação", afirma Sanches.

A defesa de Lula - que hoje lidera as intenções de voto para a eleição presidencial, mas provavelmente será barrado da disputa pela Lei da Ficha Limpa - apresentou novo recurso contra sua condenação em junho. O relator do caso, ministro Edson Fachin, remeteu o pedido para análise do plenário, mas os advogados do petista ainda tentam manter o julgamento na Segunda Turma, colegiado que, via de regra, aprecia questões penais, e no qual as chances de libertação parecem maiores.

Para Sanches, Fachin está certo e age em "defesa da decisão do plenário" de permitir a prisão de Lula em abril. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil - O Supremo Tribunal Federal passa por uma crise?

Sydney Sanches - Eu acho que sim. A turma não está cumprindo decisão do plenário (de autorizar a prisão após condenação em segunda instância) e quer que o plenário rediscuta uma questão que já foi discutida em 2016. E a presidente (Cármen Lúcia), por isso, não quer colocar em pauta a matéria. Os que ficaram vencidos naquela ocasião não se conformam com isso. De que adianta remeter a questão para o plenário se depois a turma não segue? E quem garante que vai seguir agora (caso haja revisão da jurisprudência), dependendo da nova decisão que se proferir?

BBC News Brasil - Como avalia a atuação da presidente?

Sanches - Eu acho que a presidente está certa. Para mim, a motivação, a meu ver, é outra. Evidentemente, há uma pessoa (Lula) que não se quer que continue presa, ainda que não possa ser candidata. E aí, a forma de conseguir isso, já que no habeas corpus (de Lula julgado em abril) não se concedeu (a liberdade) por que era exame de caso concreto, é julgar de novo a tese (constitucional sobre prisão após segunda instância).

Quando se tratar de exame de tese, a promessa da ministra Rosa Weber é voltar à posição que ela assumiu no plenário anteriormente (contra a prisão antecipada). Já com os outros (cinco) votos no mesmo sentido, então vai prevalecer exatamente a posição contrária (à prisão após segunda instância).

Então, a presidente pensa nisso: será que está certo pressionar para conseguir colocar em pauta uma matéria que já foi decidida só porque isso vai beneficiar uma certa pessoa? É dramática a situação. De qualquer maneira, mesmo que seja examinada novamente a questão e concedida a liberdade ao presidente (Lula), ele não pode ser candidato, por causa da Lei da Ficha Limpa. Essa confusão tem a ver com isso. Parece que está criando uma situação que todo dia um deles fala alguma coisa contra a presidente.

BBC News Brasil - Em crítica à presidente, o ministro Marco Aurélio disse que nunca viu uma manipulação tão grande da pauta do Supremo.

Sanches - Mas eu também nunca vi uma manipulação tão alta para se rediscutir a matéria que se discutiu anteriormente por decisão de seis a cinco. Também nunca vi.

BBC News Brasil - O senhor não acha que ela está manipulando a pauta?

Sanches - Em matéria de constitucionalidade, uma vez decidida a questão não se volta a discutir mais. Aí fica difícil, porque se Corte Constitucional ficar mudando, qual a segurança jurídica que faz para o país?

O fato é que a presidente está superando isso tudo, pensando o seguinte: que impressão vai causar à opinião pública se o Supremo mudar essa orientação e em seguida conceder o habeas corpus que até agora tem sido negado? Uma repercussão terrível. Agora, essa crise foi criada dentro do próprio Supremo, não foi coisa externa, o que é pior.

BBC News Brasil - Alguns juristas criticam essa percepção. Eles dizem que os ministros não deveriam ser guiar pela opinião pública.

Sanches - Mas a repercussão (negativa) seria se o Supremo mudasse a orientação que vinha sustentando até agora e logo em seguida concedesse o habeas corpus a quem eu me referi (Lula). E aí parecia um casuísmo. Isso que a presidente está querendo evitar, mas não vai conseguir por muito tempo porque o ministro Toffoli assume a presidência (em setembro) e já tem posição bem definida no sentido de que a prisão não pode ocorrer com a condenação em segunda instância.

Fica parecendo que é teimosia da presidente, mas eu me coloco no lugar dela e vejo: por que expor a Corte a tudo isso se já tem uma decisão da Corte com eficácia perante todos e tomada há dois anos? Não é uma decisão muito antiga. Se houver algum abuso, alguma injustiça flagrante, cabe liminar para dar efeito suspensivo ao recurso especial ou extraordinário, mas para isso não se precisa alterar a tese do plenário.

Agora, vem o problema da pressão das eleições. Se a pessoa solta não pode ser candidato, então a pressão vai ser para que seja suspensa a condenação, e não mais a prisão. Suspensos os efeitos da condenação (como pede a defesa de Lula agora), ele vai passar a ser ficha limpa. Então fica tudo parecendo casuísmo. E isso é péssimo para o tribunal porque fica parecendo que ele está manobrando conforme a conveniência do momento, e não (julgando) segundo a convicção jurídica.

BBC News Brasil - Os ministros contrários à prisão após condenação em segunda instância argumentam que as ações que tratam dessa questão foram julgadas apenas provisoriamente (em liminar). Não seria necessário julgá-las em definitivo para encerrar essa questão?

Sanches - Quais que não foram julgadas?

BBC News Brasil - As ações diretas de constitucionalidade (ADCs) em que houve decisão liminar permitindo a prisão após segunda instância.

Sanches - Não, a ADC é a que o ministro Marco Aurélio quer incluir em pauta para discutir a mesma matéria que foi discutida no recurso extraordinário (habeas corpus) com repercussão geral. E aí ele pede preferência para essas ações e a presidente diz: "não, não vejo preferência".

Se a posição do plenário do Supremo já é no sentido X e não no sentido Y, ela está dizendo: "não me parece urgente (apreciar) aquilo que já tem uma posição firmada no plenário do Supremo Tribunal Federal e tem eficácia erga omnes, isto é, perante todos".

BBC News Brasil - O senhor destacou que, embora esteja permitida a prisão após a segunda instância, se houver alguma flagrante ilegalidade no processo o réu pode recorrer para suspender a prisão. É o que Lula está tentando.

Sanches - Isso sim, ele já está tentando uma liminar com efeito suspensivo no recurso extraordinário. Mas no fundo é a mesma coisa. Se der a liminar, o efeito será o mesmo (que o efeito que teria o habeas corpus negado em abril, evitar sua prisão). Vai suspender o que? Só a pena? Ou a própria execução da sentença condenatória? Se a decisão se estender à sentença condenatória, então a ficha suja torna-se ficha limpa e o ex-presidente pode concorrer. Tudo isso está sendo levado em consideração (pelos ministros), alguns por motivos pessoais, outros porque acham que não há nada a alterar.

BBC News Brasil - Também está gerando polêmica a decisão do ministro Edson Fachin de remeter novamente o recurso de Lula a plenário.

Sanches - Parece que é o recurso que foi impetrado para dar efeito suspensivo (à condenação do TRF-4) e suspender a execução da pena. Essa tese em caso concreto já foi decidida em seis a cinco (no julgamento do habeas corpus em abril), mesmo com voto da Rosa Weber, porque ela disse que, como se trata de caso concreto, aplico orientação do plenário. O que ela está fazendo é cumprir o que o juiz deve fazer. Se não é para seguir a decisão do plenário, não precisa ter plenário.

BBC News Brasil - Mas o caso do Lula a princípio deveria ser julgado na turma. Para alguns juristas, a decisão de Fachin é uma perseguição a Lula, um tratamento diferenciado.

Sanches - É que ele (Fachin) sabe que agora vai ser deixada de ser aplicada (na turma) a decisão do plenário, e ele quer saber se o plenário vai mudar ou não vai mudar (sua decisão no habeas corpus de Lula). Eu acho que é isso. Ele faz o que tem que fazer. Como relator (do caso de Lula), ele protege a decisão plenária.

A imagem que está ficando é de crise interna. A repercussão é ruim, porque se o Supremo não for confiável, o que vai ser do Judiciário? Historicamente ele sempre foi o baluarte dos direitos. Agora, também é composto por seres humanos, então também entendo a reação daqueles que não se conformam de terem perdido.

BBC News Brasil - O Supremo é o guardião da Constituição. Para alguns juristas, porém, os ministros têm feito justamente o contrário, estão flexibilizando a Constituição, por exemplo, quando acabaram com o foro privilegiado de parlamentares ou quando permitiram a prisão antes do trânsito em julgado. Como o senhor vê isso?

Sanches - Quando a Constituição criou o foro privilegiado eu acho que (o constituinte) imaginava que um parlamentar de vez em quando podia ter um processo no Supremo Tribunal Federal. Mas aí você verifica que todo dia entra um processo contra um parlamentar. Então, o tribunal entendeu no sentido de interpretar mais restritivamente: "bom, se a Constituição quer proteger o exercício do mandato, o foro é só para crimes que tenham sido praticados no exercício do mandato e em função do mandato". Foi o que o Supremo fez, a meu ver, acertadamente.

BBC News Brasil - A Constituição estabelece que uma pessoa só é culpada após o trânsito em julgado. O Supremo não está flexibilizando a letra da Constituição?

Sanches - Mas acontece que não se pode interpretar só a letra da lei, tem que interpretar o sistema da lei. O sistema criou juízes de primeira instância e tribunais criminais de segunda instância. Se eles não tiverem eficácia, se as decisões não puderem ser cumpridas, para que que eles existem? Então por que todas as causas não vão diretamente ao Supremo, o que seria um absurdo? São os juízes de primeira e segunda instância que julgam as provas, que veem as testemunhas, os réus. Eles que avaliam as perícias. Nos recursos especiais e extraordinários (às cortes superiores) não cabe revisão das provas, só discutir se o direito foi corretamente aplicado.

BBC News Brasil - Alguns ministros claramente viraram inimigos e até brigam em plenário. Eles têm que sentar e conversar?

Sanches - Olha, no tempo em que eu militei no Supremo, durante 19 anos, de 1984 a 2003, eu nunca presenciei nada do que está acontecendo atualmente. O que havia eram discussões, às vezes acaloradas, mas nunca com ofensas pessoais, como agora. Então, esse clima está criando uma situação que eu acho penosa para o Supremo. Na história do Supremo, isso é uma mácula. O Judiciário não existe para isso, existe para decidir quem tem razão e quem não tem.

Agora, o colegiado julga para que a maioria decida. Se a maioria amanhã decidir reconsiderar aquela decisão (da prisão após segunda instância), tudo bem, mas cumpra-se a decisão. O que não pode é aquela turma que perdeu dizer "eu não cumpro porque eu não gostei'. Isso é que não poder fazer.

BBC News Brasil - Como essa crise poderia ser superada?

Sanches - Eu não sei, porque isso aí é questão de bom senso. Nenhum deles é dono do Supremo, nem é dono do cargo. Estão lá pagos pelo povo para decidir de acordo com sua convicção jurídica, imparcial, e nada mais. Eu estou surpreso e perplexo com o que está acontecendo.

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O México vai eleger seu próximo presidente neste domingo, 1º de julho. Pelo WhatsApp, um "aviso urgente" se espalha entre os mexicanos: "Amigos, é necessário que a população leve sua caneta para votar, já que os lápis que são fornecidos podem ser apagados. Isso é verdade. Meu diretor será presidente de uma seção de votação e testou os lápis. Por favor, compartilhem…".

méxico
Mexicanos receberam mensagens por WhatsApp dizendo que a seleção do país jogaria no dia das eleições para evitar comparecimento às urnas, e que os lápis usados na votação poderiam ser fraudados / Imagem: reprodução Verificado 2018 e WhatsApp

Também por WhatsApp, os mexicanos recebem outra informação urgente: o Instituto Nacional Eleitoral do México teria pago propina para a FIFA para que a seleção do país jogasse na Copa do Mundo no mesmo dia das eleições, o que diminuiria o comparecimento às urnas.

As duas mensagens são falsas. Primeiro, o México não vai jogar no domingo de eleições, mas sim no dia seguinte, contra o Brasil. Com relação aos lápis, eles existem de fato, já que o voto é em cadernetas de papel. Mas são produzidos com uma tecnologia diferente e sua marca não pode ser removida. Em todo caso, quem ficar desconfiado pode levar sua própria caneta.

Essa é apenas uma pequena parte da teia de mentiras sobre as eleições mexicanas, que estão se difundindo pela internet, principalmente pelo WhatsApp e pelo Facebook.

São supostas denúncias em primeira mão, declarações fajutas, difamações de candidatos ou notícias que a imprensa estaria escondendo do público. Em geral, partem de um elemento que parece verdadeiro - como a Copa e os lápis eleitorais.

"As eleições no México sempre foram conhecidas por serem negativas e com muita notícia falsa. A diferença é que agora o WhatsApp permite que as fake news (notícias falsas, em inglês) tenham uma distribuição mais rápida e escalada", diz o brasileiro Maurício Moura, fundador da Ideia Big Data, empresa que faz pesquisas de opinião e que está trabalhando em uma campanha política estadual no México.

Brasil e México são parecidos no uso de WhatsApp

O cenário mexicano é um alerta para o Brasil, que vai votar para presidente três meses depois do vizinho latino-americano, em 7 de outubro. Nos dois países, o comportamento digital da população é extremamente parecido.

Tanto no Brasil quanto no México, o WhatsApp é o aplicativo com maior alcance, segundo a pesquisa Futuro Digital Global 2018. Cerca de 60% da população dos dois países usa o app de conversas. De cada 7 minutos que brasileiros e mexicanos passam na internet, 1 deles é no WhatsApp.

Já nos Estados Unidos e no Canadá, o Facebook é o app mais importante; na França e na Alemanha, o Google Play.

"A diferença da América Latina em relação aos Estados Unidos e Europa é o WhatsApp. Lá, o app não é relevante para a desinformação. Aqui, sim", afirma Tania Montalvo, editora executiva do Animal Político, um dos sites de jornalismo político mais lidos do México.

"É claro que as pessoas também compartilham fake news no Facebook e no Twitter. Mas no WhatsApp as mensagens são mais violentas e as mentiras maiores", completa Montalvo.

"O debate político no WhatsApp é um fenômeno muito latino-americano. Os países desenvolvidos, como os Estados Unidos, usam pouco o app. Já no Brasil e no México, o conteúdo político é muito compartilhado na plataforma, principalmente nos grupos", explica Moura.

Foi o que ocorreu no Brasil em maio, quando a greve dos caminhoneiros parou o país por 10 dias. O protesto foi mobilizado pelo WhatsApp.

"Assim como no México, acredito que o Brasil vai passar pelas eleições com uma maré de fake news no WhatsApp muito forte", avalia o brasileiro, que também pesquisa o uso de redes sociais nas eleições na Universidade George Washington, nos Estados Unidos.

Fakes miram López Obrador, em primeiro lugar nas pesquisas

Grande parte das mentiras espalhadas nas eleições mexicanas são direcionadas ao candidato que está em primeiro lugar nas pesquisas de opinião: Andrés Manuel López Obrador, do Movimiento de Regeneración Nacional (Morena), ex-prefeito da Cidade do México, de esquerda.

Conhecido no país pelas suas iniciais, AMLO, ele já foi filiado ao Partido Revolucionário Institucional (PRI), grupo político que governou o México por décadas e do qual faz parte o atual presidente Enrique Peña Nieto.

Hoje, López Obrador é oponente do PRI, que tem um candidato próprio - o ex-ministro José Antonio Meade, em terceiro lugar nas pesquisas.

Porém, um dos vídeos falsos que circula no México diz que López Obrador seria o verdadeiro candidato do PRI: "Não dê seu voto para o PRI. Não vote por AMLO". É uma mensagem que favorece o segundo colocado nas pesquisas, o candidato Ricardo Anaya, do conservador Partido de Ação Nacional (PAN).

Outra notícia falsa relacionada a López Obrador é um suposto vídeo em que o Papa Francisco teria dito que "as ideologias de AMLO são ditaduras que não servem". O vídeo mentiroso foi visto no Facebook mais de 2,5 milhões de vezes.

Também estão circulando no WhatsApp diversos vídeos satíricos sobre López Obrador. Em um deles, é chamado de velho, incapaz de governar o país - tem 64 anos, o candidato à Presidência mais velho. Em outro, adquire um "kit autoritarismo do século XXI, ensinado pelos melhores ditadores da América Latina".

"A campanha de López Obrador está, basicamente, se defendendo de ataques no WhatsApp. Tentam colar nele a imagem do novo Hugo Chávez (ex-presidente da Venezuela) e ele tenta se desvencilhar", afirma Maurício Moura.

Mas López Obrador não é o único candidato a ser vítima das fake news. Todos estão no radar. Outro vídeo que viralizou, por exemplo, afirmava que o candidato Anaya apoiava a ideia do presidente americano Donald Trump de construir um muro na fronteira entre Estados Unidos e México - medida rechaçada pelos mexicanos. Também era mentira.

Por outro lado, a eleição mexicana está cheia de fatos que parecem falsos, mas são verdade. Circulou nas redes sociais que a campanha de Anaya, por exemplo, criou cartões bancários com a inscrição "$1500 pesos mensais", que vinham acompanhados de uma carta em que o presidenciável dizia: "agradeço seu apoio".

Muita gente achou que era mentira, mas não. Era um protótipo real de um programa de Anaya, pelo qual cada mexicano terá direito a uma renda mínima. A propaganda foi criticada por ser clientelista - pede voto enquanto promete dinheiro.

As notícias falsas ganharam destaque em 2016, durante as eleições americanas que elegeram Donald Trump. Na época, o Facebook foi inundado por informações mentirosas. Segundo análise do BuzzFeed News feita na rede social, as 20 maiores notícias falsas tiveram mais alcance que as 20 maiores notícias verdadeiras.

Colocado contra a parede, o Facebook se comprometeu a implementar medidas para combater a propagação de notícias falsas. No Brasil, elas já estão em vigor. Durante as eleições, isso deve se intensificar.

Já no WhatsApp, o combate às fake news é muito mais difícil. O conteúdo vai direto de um usuário para outro, em um diálogo criptografado. Assim, o app não tem conhecimento sobre o que está sendo compartilhado e nem sabe quantas pessoas receberam um determinado conteúdo.

Além disso, não há registro de quem foi o autor original da informação. As mensagens vão se espalhando em um esquema de pirâmide anônima e é impossível rastrear em que celular e quando uma mensagem viral foi gerada.

"Minha hipótese é que é muito mais fácil compartilhar uma fake news em um canal privado como o WhatsApp, porque você não corre o risco de receber críticas públicas por estar compartilhando mentiras", completa a jornalista Montalvo, do Animal Político. Enquanto isso, no Facebook, um comentário crítico fica visível para todos os amigos.

Mexicanos lançam iniciativa para combater fake news nas eleições

"A tia Elenita e o primo Jorge estão compartilhando, outra vez, notícias suspeitas no WhatsApp? Nos mande essa informação duvidosa com a hashtag #QuieroQueVerifiquen (quero que verifiquem)".

A mensagem acima até dialoga com a realidade brasileira - afinal, quase todo mundo tem um parente que compartilha notícia falsa no WhatsApp - mas foi postada no Twitter no México.

O autor do post é o Verificado 2018, uma plataforma de checagem de conteúdo do WhatsApp e das redes sociais, criada este ano por um grupo de jornalistas mexicanos.

O objetivo é enfrentar a multiplicação de notícias falsas nas eleições. Como funciona? Primeiro, o público envia uma mensagem para o projeto - no WhatsApp, Twitter ou Facebook - com a informação que gostaria de checar. A plataforma, então, escolhe os pedidos cujos conteúdos estão sendo mais compartilhados.

Depois, verifica se é verdade, transforma a investigação em vídeos e imagens - com uma linguagem cheia de memes - e envia de volta para quem perguntou.

A diferença em relação a grupos de checagem de informações brasileiros é essa ponte com o público. No WhatsApp, o Verificado já recebeu mais de 45 mil mensagens - e respondeu 26 mil delas com conteúdo checado.

Já no Twitter, a hashtag do projeto (#QuieroQueVerifiquen) foi usada 25,8 mil vezes. No Facebook, foram 8,5 mil pedidos. Até agora, mais de 350 histórias foram publicadas.

A equipe é formada por membros de dois grupos jornalísticos: o Animal Político, a AJ+ México - um braço digital da Al Jazeera. Mais de 90 organizações são parceiras na distribuição do conteúdo, como a Televisa, mais importante rede de TV do México.

Grande parte dos conteúdos falsos recebidos pela equipe do Verificado 2018 vieram do WhatsApp. "O WhatsApp está desempenhando um papel importante na difusão de notícias falsas. O conteúdo que nós mais recebemos para verificar no app são teorias de conspiração, além de correntes com notícias falsas", diz Yuriria Ávila, uma das jornalistas mexicanas que faz as checagens do Verificado.

"O WhatsApp é um desafio particular, porque é uma conversa privada, o conteúdo não fica público como no Facebook e no Twitter", afirma Diana Larrea, editora de conteúdo da Al Jazeera Media Institute e integrante da equipe do Verificado 2018.

"Não dá para deixar o WhatsApp de lado. Mas achamos fake news em todas as plataformas. Então, na verdade, não podemos negligenciar nenhuma", acrescenta Larrea.

Truques para identificar se uma informação é falsa

Além de checagens, o Verificado 2018 produz tutoriais para ajudar o público a identificar uma mentira. Entre eles, estão seis dicas para frear as notícias falsas - válidas tanto no México quanto no Brasil.

Em primeiro lugar, se você não leu a notícia, não compartilhe. O título pode ser enganoso. Segundo, sempre procure quais são as fontes. Quem disse? De onde tiraram a informação? Se não sabe de onde veio, a notícia pode ser falsa.

Terceiro, tome cuidado com notícias super exclusivas, mas que não foram replicadas por mais ninguém. "Quando mais ninguém fala de uma notícia, o mais provável é que seja mentira", explica o Verificado 2018.

Também é preciso ter atenção com o disse-que-me-disse. Uma notícia que cita como fonte outra notícia, que por sua vez cita uma terceira, sem informar a fonte original da informação, provavelmente é falsa.

Além disso, se a notícia está cheia de erros de ortografia ou se tem mais adjetivos do que dados, pode ser mentira. "Você também tem o poder de barrar a desinformação", conclui a equipe do Verificado 2018.

"Nós sentimos que as pessoas estão mais conscientes de que as notícias falsas estão sendo espalhadas. E que estão mais cautelosas e céticas sobre a informação que recebem nas redes sociais", fala Yuriria Ávila.

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O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera a corrida eleitoral para o Planalto, seguido por Jair Bolsonaro (PSL) e Marina Silva (rede), aponta a nova pesquisa Ibope, contratada pela Confederação Nacional das Indústrias, divulgada nesta quinta-feira.

ELEIÇÕES
59% dos eleitores dizem que não querem nenhum candidato ou não sabem quem escolher

Diante da lista de candidatos, 33% dos entrevistados disseram preferir Lula, contra 15% de Jair Bolsonaro (PSL), Marina Silva (Rede), 7%, e Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB), 4% cada. No cenário estimulado sem Lula, Bolsonaro marca 17%, Marina, 13%, Ciro, 8% e Alckmin 6%. A pesquisa não é comparável com anteriores porque os cenários testados são diferentes.

Já na sondagem sobre avaliação de governo, o presidente Michel Temer atingiu novo recorde de rejeição: 79% dos respondentes desaprovam a gestão em junho, contra 72% em março.

A pesquisa ouviu 2 mil eleitores entre os dias 21 e 24 de junho e tem margem de erro de 2%.

Mas, há mais a ser visto na pesquisa. A BBC News Brasil separou alguns dados revelados pela sondagem:

Quanto mais pobre o eleitor, mais chances de votar em Lula. O contrário vale para Bolsonaro

A pesquisa mostra que as intenções de voto em Lula aumentam quanto menor é a renda do eleitor. No caso de Bolsonaro, o oposto acontece: o nível de preferência é maior entre os mais ricos. Em respostas estimuladas, Bolsonaro conquista 29% das menções entre aqueles eleitores com renda familiar de mais de 5 salários mínimos. Nessa faixa de renda, Lula marca 17%.

No outro extremo, o petista amealha 45% de apoio entre aqueles que têm até 1 salário mínimo de renda familiar. Entre os mais pobres, Bolsonaro tem apenas 7%.

O mesmo fenômeno se repete em relação à escolaridade. Na estimulada, Lula obtém 44% da preferência daqueles que concluíram até a quarta série do ensino fundamental, enquanto Bolsonaro registra apenas 5% nesse grupo.

Entre aqueles eleitores com curso superior, a intenção de voto de Lula cai para 20%. Bolsonaro registra 22%.

Marina, Ciro e Alckmin demonstram pouca variação entre os índices de preferência quanto à escolaridade e à renda.

Voto de Bolsonaro é majoritariamente de homens

Dentre os homens, Bolsonaro obtém 21% das preferências, enquanto só 9% das mulheres que responderam à pesquisa afirmam que votarão no ex-militar.

Já Lula tem 35% da preferência delas, enquanto 31% dos homens dizem escolhê-lo.

As mulheres se mostram mais desiludidas: 25% dizem que votarão branco ou nulo. Entre os homens, esse percentual atinge 18%.

Sem Lula, Marina e Ciro ganham de Bolsonaro no Nordeste

Em um cenário sem o presidente Lula, Bolsonaro obtém a maior taxa de preferência entre os demais candidatos nas regiões Norte/Centro-Oeste (19%), Sudeste (19%) e Sul (21).

O Nordeste é seu ponto fraco, com apenas 10% de menções. Ali, ele perde tanto para Marina Silva, que registra 16% das preferências, quanto para Ciro Gomes, que tem 14%.

Collor lidera rejeição junto com Lula e Bolsonaro

Lula e Bolsonaro polarizam preferências e estão na liderança da pesquisa. São também os campeões da rejeição: 32% dos eleitores dizem que não votariam em Lula em hipótese alguma e 31% afirmam o mesmo em relação a Bolsonaro. O ex-presidente Fernando Collor de Melo divide com ambos a aversão dos eleitores.

Collor, no entanto, registra apenas 1% das intenções de voto em seu melhor cenário.

6 de cada 10 eleitores não sabem em quem votarão ou não querem votar em ninguém

A pesquisa revela que 59% de eleitores ainda não sabem em quem votar ou não pretendem escolher ninguém: 31% dos respondentes disseram que anularão ou assinalarão branco na urna, enquanto 28% não sabem ou não responderam.

"É um número mais alto de indefinição do que o visto em outras eleições nesse mesmo período", afirma Márcia Cavallari, CEO do Ibope Inteligência, responsável pela sondagem. "Nas pesquisas, as pessoas estão expressando uma preocupação em ter um voto consciente, citam interesse em ver programas e propostas dos candidatos. E há uma incerteza sobre quem serão os candidatos", completa.

Insatisfação com Temer é maior entre os jovens e menor entre os mais velhos

Eleitores entre 16 e 24 anos são os mais insatisfeitos com a gestão Michel Temer (MDB). Apenas 1% dos respondentes nessa faixa etária avalia o governo como ótimo ou bom. Com a margem de erro, o percentual pode chegar a zero.

E 82% dos jovens qualificam o governo como ruim ou péssimo.

Entre os entrevistados com mais de 55 anos, Temer consegue seu maior percentual de ótimo ou bom: 5%. E 71% deles dizem que a gestão é ruim ou péssima.

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Ao mesmo tempo em que o Brasil assiste à criação de movimentos que defendem a renovação política e ao surgimento de escolas de formação de novas lideranças, as principais previsões para as eleições de 2018 não são de grandes mudanças.política

Na lista de pré-candidatos ao Palácio do Planalto, por exemplo, há pouca novidade: dois ex-presidentes da República, cinco ex-ministros, além de nomes que já estiveram no Congresso, foram governadores ou pelo menos se candidataram a algum cargo em eleições passadas.

No caso do Congresso, se seguir a tendência das eleições passadas, o índice de renovação também não tende a ser muito alto. Dos 513 deputados eleitos em 2014, 290 - mais de 54% - já faziam parte da legislatura anterior. Além disso, a grande maioria dos eleitos que não eram deputados federais no mandato anterior já tinha trabalhado com política ocupando cargos eletivos ou nomeados no Legislativo ou no Executivo, em alguma das três esferas.

Mas afinal, por que é tão difícil renovar a política no Brasil?

A forma como o sistema e as regras estão estruturados, dizem especialistas, tendem a beneficiar quem já faz política e dificultar a entrada dos novatos.

"As estruturas dos partidos são completamente engessadas, hierárquicas e prontas para eleger certas figuras e talvez para trazer um (único) novo nome", afirma a cientista social e antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, professora da Universidade Federal de Santa Maria, dizendo ser otimista em relação às novas gerações e formas distintas de candidaturas que estão aparecendo.

Já para o cientista político e professor do Insper Carlos Melo, "algum grau de renovação sempre tem".

"A questão é se vai ser significativa para renovar a cara do sistema", observa Melo, que não aposta numa mudança significativa de imediato, mas acredita que o país está vivendo um processo de transformação da política - os resultados, contudo, só poderão ser mensurados, segundo ele, talvez daqui a quatro ou oito anos.

A BBC News Brasil ouviu especialistas e jovens que dizem querer mudar a política para apontar as principais dificuldades de mudar a cara e as práticas do sistema político no país. Cinco foram as razões mais citadas para explicar por que isso é tão difícil:

1. Estrutura dos partidos políticos

Como candidaturas avulsas ou independentes não são permitidas no Brasil, para disputar uma eleição é obrigatório estar filiado a um partido político pelo menos seis meses antes do pleito.

Apesar de ser relativamente fácil se associar a um partido, as siglas tendem a dar mais oportunidades e a serem mais receptivas aos novatos que são potenciais puxadores de votos, como artistas ou atletas.

"É muito difícil você entrar num partido se não for para trabalhar dentro de uma lógica muito pré-determinada. Muitas vezes a lógica é perpetuar o partido e os mesmos poderes, as mesmas redes. Geralmente redes masculinas, com algumas exceções é claro, mas redes de homens brancos", afirma Pinheiro-Machado.

A professora diz que ainda é muito raro que partidos invistam em candidaturas femininas, em especial de mulheres negras.

Alguns partidos estão abrindo as portas para candidatos de movimentos políticos nascidos nos últimos anos, como Agora!, RenovaBR, Movimento Brasil Livre (MBL) e Livres. Mas isso não significa que os mais jovens vão ter voz e força nessas legendas.

Por isso, Pedro Duarte, vice-presidente da juventude do PSDB, defende que mais jovens se filiem a partidos tradicionais e que participem de forma mais ativa da vida partidária na tentativa de abrir espaço para caras novas em organizações onde a estrutura de poder está consolidada e há pouca alternância no comando.

2. Financiamento de campanha

Além de não terem as portas abertas, diz Carlos Melo, os partidos se transformaram em importantes financiadores de campanha e tendem a patrocinar quem já está no poder.

Desde 2014, quando o Supremo Tribunal Federal proibiu a doação de empresas para partidos e candidatos, o financiamento eleitoral ficou restrito às contribuições de pessoas físicas - que podem doar até 10% da renda declarada no ano anterior à eleição - e ao fundo partidário, que é de R$ 888,7 milhões neste ano.

No ano passado, deputados e senadores aprovaram o fundão eleitoral no valor de R$ 1,7 bilhão. Tanto os recursos do fundo partidário quanto os do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, nome oficial do fundão eleitoral, têm seu destino decidido pelos partidos.

"Esses recursos tendem a ser distribuídos pela cúpula dos partidos e a fortalecer quem já está no poder", afirma Melo, salientando que nem sempre os partidos são transparentes e democráticos.

Apesar de a minirreforma partidária aprovada no ano passado ter estabelecido um teto para os gastos de campanha, disputar uma eleição de forma competitiva ainda é considerado caro.

"Acho que os partidos são muito pouco dispostos a financiar novos candidatos", completa Rosana Pinheiro-Machado.

3. Força dos que já têm mandatos

Tanto Pinheiro-Machado quanto Melo apontam que, na lógica de privilegiar quem já está no poder, o sistema político dá especial atenção aos donos de mandatos ou de cargos que conseguem usar a máquina pública.

"Imagina um jovem que vai disputar com alguém que já tem sede física, assessores e rede de relacionamento com prefeitos, vereadores", diz o professor, salientando a condição de desvantagem dos que não têm "um aparelho" funcionando a seu favor.

Melo afirma ainda que são poucos os partidos que têm líderes carismáticos como Lula ou "chefões" como Valdemar da Costa Neto (PR) e Roberto Jefferson (PTB), que conseguem se manter fortes em suas respectivas legendas mesmo sem mandato.

Ainda assim, Pinheiro-Machado diz que, apesar de ser difícil, é possível romper com esse sistema.

"Sou otimista em relação às novas gerações e às novas formas de candidaturas que estão começando a se colocar na jogada; de pessoas que vieram dos novíssimos movimentos até de candidaturas ativistas, e mesmo de grupos mais ao centro e à direita", diz.

"Há grupos que estão pensando também em amplas redes de renovação política e de formação de lideranças muito voltadas para questões técnicas."

4. Tom do discurso político

Apesar das dificuldades impostas pelo sistema, os novatos também podem acabar criando dificuldades para si mesmos. Jovens ou neófitos na política nem sempre conseguem fugir do discurso tradicional e impor um tom realmente novo.

Os especialistas, no entanto, são otimistas sobre a nova geração. Para Carlos Melo, há pessoas propondo novos tipos de organização mais horizontal e coletiva. E, principalmente, com um discurso que não desqualifica seus opositores. "Um novo jeito de fazer política está germinando de alguma forma", diz.

Pinheiro-Machado acha que os mais jovens com menos de 20 anos já conseguem fugir do discurso convencional porque fazem parte de "uma geração completamente avessa ao sistema político".

Ela admite, no entanto, que esta turma ainda deve demorar a assumir o poder. Enquanto isso, muitos dos que dizem querer mudar a política a partir das eleições de 2018 "falam mais do mesmo".

5. Disposição do eleitor

A aparente pequena disposição do eleitor em mudar o sistema também é citada pelos pesquisadores como um dos fatores que dificulta essa renovação. Tamanha insatisfação com a política tem refletido no índice significativo de eleitores que prefere votar em ninguém.

Votos brancos e nulos crescem a cada pesquisa de intenção de votos e, segundo o Datafolha, atingiram neste mês patamares recordes. A depender do cenário, o número de pessoas que declara votar branco ou nulo varia de 17% a 28% na pesquisa Datafolha de junho, feita com mais de 2 mil pessoas em 174 municípios.

"São votos de protesto, de negação da política. A fase em que a gente está é de um mau humor terrível", avalia Carlos Melo.

Como, então, mudar a política?

A BBC News Brasil perguntou a jovens que dizem querer mudar a política como pretendem renovar o sistema. A maioria defendeu uma mudança completa de pessoas, práticas e ideias.

Há, contudo, posições contraditórias em relação os novos movimentos.

Para João Francisco Maria, da Rede e do movimento Agora!, o momento é de transição. "O sistema velho está morrendo, os partidos vão morrer. Mas a gente tem que ocupar esses espaços, hackear a política, ocupar as instituições políticas, ocupar os partidos, ocupar o Parlamento para, dentro dele, ir ajudando para fazer essa transição e a construção do novo."

Já Felipe Rigoni, do Movimento Acredito e do Instituto RenovaBR, diz ser "impossível fazer política sem partido político". Ele acredita que movimentos de renovação politica que estão aparecendo tendem a se integrar com as legendas tradicionais.

É com a participação dos movimentos, afirma Rigoni, que os partidos vão se renovar e "tornar-se o que devem ser: o elo entre o cidadão e o governo".

Por sua vez, Camila Moreno, do diretório nacional do PT, é crítica a muitos dos movimentos que pregam a renovação. "Acho que muitos desses novos movimentos estão ligados à política tradicional. Eles são a ideia da velha política num novo corpo", diz. Ela acredita em mudança porque acha que os jovens "não estão satisfeitos com o que já foi conquistado".

Para o vice-presidente do PSDB, Pedro Duarte, "não é uma tarefa fácil, e ninguém nunca disse que seria fácil". "Certamente há uma resistência da velha guarda, mas a gente não pode fazer um discurso muito simples, muito bobo dos novos contra os velhos. Existe muita gente boa que é considerada da velha guarda", avalia.

Para Fábio Osterman, do Movimento Livres, "não existe um só caminho". "Acho que a gente precisa ter esforços concatenados da sociedade civil com a sociedade política."

"Está cada vez mais claro que a gente precisa ter uma mudança geracional, que essa velha guarda que está no poder tem feito o possível para barrar. A gente precisa de uma nova geração de políticos que acreditem a politica serve para servir o cidadão, e não se servir do cidadão", opina Osterman.

Há quem, em vez de se lançar na política, aposte na formação de novos nomes. A professora Rosana Pinheiro-Machado faz parte do grupo que criou a Escola Comum, que capacita jovens lideranças de áreas periféricas com aulas aos sábados, em São Paulo.

"O que a gente não quer é formar aquele estudante de movimento estudantil que repete as mesmas coisas como mesmo tom de voz. A gente quer formar políticos de raiz, voltados para as comunidades locais, mas que saibam pensar de forma intelectual e livre", explica.

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Países com diferenças históricas, climáticas e culturais à primeira vista inconciliáveis, Brasil e Rússia há quase 20 anos fazem parte do mesmo grupo de emergentes, os Brics, graças às características que têm em comum na economia.

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Assim como o Brasil, a Rússia também passou por uma recessão em 2015 e 2016 - FOTO: Getty Images

Assim como Índia, China e África do Sul, os demais países que compõem a sigla, ambos viveram um ciclo de prosperidade até 2010, impulsionado também pelo aumento nos preços internacionais de commodities – o petróleo no caso da sede da Copa e a soja e o minério de ferro, no do Brasil.

Quase dez anos depois, contudo, o cenário é outro: os dois países tentam se recuperar depois de dois anos de recessão e, tanto lá quanto aqui, a retomada é lenta.

A "ressaca" após período de boom econômico, avaliam especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, também é reflexo das similaridades entre as duas economias. Ambas dependem da exportação de produtos básicos, cujos preços recuaram, perdem com a baixa produtividade do trabalho e com a falta de inovação na indústria.

Ao contrário do Brasil, entretanto, a dívida pública russa praticamente não subiu durante a crise – avançou de 15,9% do PIB para 17,4% entre 2015 e 2017, contra um salto de 72,5% do PIB para 83,9% aqui – e a taxa de desemprego não foi além dos 5%, em parte por pressão do governo Putin para que as empresas não demitissem.

Mas isso não quer dizer a população não tenha sentido os efeitos da recessão. Os salários encolheram durante esse período, e os russos ainda não recuperaram seu poder de compra.

Em ambos os países, a renda é altamente concentrada. A Rússia tem 101 bilionários – mais que o dobro do Brasil –, e 20 milhões estão abaixo da linha de pobreza, levando em conta as estimativas do governo, consideradas conservadoras.

Apesar da desigualdade elevada, contudo, o país tem desempenho compatível com o de países europeus nos rankings internacionais de avaliações de alunos, como o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) – uma diferença marcante, já que o Brasil ocupa as últimas posições da lista e tem o pior resultado quando se leva em consideração os testes de matemática.

O analfabetismo foi erradicado ainda antes da Segunda Guerra e praticamente não existem crianças fora da escola, conta a professora Elena Vássina, natural de Moscou, que dá aulas de literatura e cultura russa na Universidade de São Paulo (USP).

"Com três ou quatro anos as crianças já começam a decorar poemas de (Alexander) Pushkin na escola", diz ela, que embarca neste sábado para o país da Copa para assistir aos jogos em casa.

Recessão com inflação alta

O colapso nos preços do petróleo é apontado como principal responsável pela crise econômica que fez o PIB da Rússia encolher 2,5% em 2015 e 0,2% em 2016 – tombo menor que o do Brasil, de 3,5% em cada um dos dois anos.

Cotado a mais de US$ 100 até o início de 2014, o barril chegou a valer menos de US$ 30 em 2016. A commodity é o principal produto de exportação dos russos, representando cerca de 50% de tudo o que país vende ao exterior, entre petróleo cru, refinado e gás.

Além da queda nos preços, as sanções econômicas impostas à Rússia pelos Estados Unidos e União Europeia em 2014, logo após a anexação da Crimeia – região que estava sob o controle da Ucrânia – também tiveram papel importante na crise, acrescenta Nafez Zouk, da consultoria Oxford Economics.

Com menos exportações, o volume de dólares no país diminuiu. Para evitar que a Rússia "vendesse todas as suas reservas" na tentativa de segurar a cotação da moeda americana, o Banco Central passou a adotar o regime de câmbio flutuante, explica o economista, e deixou o rublo desvalorizar.

A moeda chegou a perder 50% do valor nesse período e provocou um salto na inflação, que chegou a ficar ainda mais alta que no Brasil. Em 2015, atingiu 12,9%, contra 10,67% por aqui.

Desemprego baixo e 'contratação três por um'

A trajetória do desemprego mostrada pelos dados oficiais, entretanto, praticamente não se alterou. Enquanto no Brasil a taxa atingiu 12,8%, na Rússia ela não passou de 5,6%.

Isso se explica, em parte, pelo chamado "desemprego oculto", que cresceu nesse período, diz o economista russo Victor Krasilshchikov.

Incentivadas pelo governo, as empresas reduziram as remunerações e mantiveram o volume de contratações de novos empregados.

"Elas contratam três pessoas com o salário de uma", diz o especialista, que é chefe do grupo de pesquisa do Centro de Estudos do Desenvolvimento do Instituto Nacional de Pesquisa de Economia e Relações Internacionais (Imemo).

"Existe uma pressão política para não demitir", concorda William Jackson, da Capital Economics, acrescentando que, além do corte nos salários, as empresas também reduzem as horas de trabalho e dão férias coletivas para evitar cortes de pessoal.

Com o aumento da inflação e a redução dos salários, contudo, a renda do trabalho vem encolhendo de forma contínua desde a crise, diminuindo o poder de compra dos russos.

"O consumo foi o que mais sentiu (os efeitos da recessão). O fardo da crise recaiu majoritariamente sobre os trabalhadores", avalia Zouk, da Oxford Economics.

Apesar da recuperação dos preços do petróleo, que favorece a retomada da economia do país, o economista pondera a Rússia enfrenta entraves similares aos do Brasil – problemas estruturais que diminuem seu potencial de crescimento, como a baixa produtividade do trabalho, a falta de inovação e a economia relativamente fechada e pouco competitiva.

Um dos países com maior concentração de riqueza

Com 101 bilionários – contra 43 no Brasil –, a Rússia está entre os países que mais concentra riqueza no mundo, conforme o Global Wealth Report do banco Credit Suisse.

Os 10% mais ricos detêm 77,4% de toda a riqueza do país, contra 72,3% no Brasil. O economista Tony Schorrocks, um dos autores do levantamento, que há dez anos trabalha na base de dados, explica que a estimativa leva em consideração todo o patrimônio pessoal, de propriedade a ativos financeiros, descontadas as dívidas.

É diferente, por exemplo, do indicador da desigualdade de renda usado pelo Banco Mundial. Tomando essa medida, os 10% mais ricos na Rússia acumulam quase 30% dos rendimentos, enquanto no Brasil o percentual sobe para pouco mais de 40%.

"Essa é uma medida (a concentração de riqueza) importante quando se analisa, por exemplo, a mobilidade social entre as gerações e a persistência da desigualdade. Os filhos não herdam a renda do trabalho dos pais, mas o patrimônio", ele pondera.

"Além disso, os ricos não gastam seu dinheiro só em produtos de luxo. Eles, em muitos casos, têm influência sobre a mídia e fazem grandes doações a partidos políticos", acrescenta.

No caso da Rússia, diz o economista, a concentração seria em parte reflexo da transição do regime comunista da União Soviética, em que praticamente não havia propriedade privada, para o capitalismo.

Nas últimas décadas, um grupo pequeno de pessoas influentes explora os principais recursos do país – não por acaso, os bilionários russos no topo da lista atuam no setor de óleo e gás e na indústria do aço.

Na base da pirâmide, as estatísticas oficiais apontam que pouco mais de 13% da população do país, 20 milhões, está abaixo da linha de pobreza, estabelecida em pouco mais de 10 mil rublos (cerca de US$ 155) pelo governo.

Krasilshchikov, economista do Imemo, pondera que, se levada em conta a métrica usada pelas Nações Unidas para definir pobreza – se a família gasta mais da metade da renda para comprar alimento –, 30% dos russos seriam considerados pobres.

A pobreza é maior nas pequenas cidades rurais – onde vive um quarto da população, contra 14% no Brasil –, diz o economista, do que nos grandes centros, como Moscou e São Petersburgo.

Dostoiévski no 'ensino médio'

Apesar da desigualdade elevada, o acesso à educação pública de qualidade na Rússia é quase universal, diz a professora Elena Vássina, que se divide entre São Paulo e Moscou.

Herança do período comunista, o programa de ensino é igual em todo o território e há boas escolas mesmo nas cidades menores. "O ensino era muito ideologizado, mas o comunismo investiu muito em educação. É uma tradição russa que vem desde o século 18", ela ressalta.

Clássicos como Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski, e Guerra e Paz, de Liev Tolstói, ela conta, são leituras obrigatórias para os jovens de 15 e 16 anos. Nos cursos de literatura nas universidades, a carga horária é três vezes maior do que na USP, por exemplo, onde Vássina leciona.

Não por acaso, o desempenho do país em avaliações como o Pisa é muito superior ao do Brasil. Tanto nos testes de leitura quanto nos de matemática, a Rússia está acima da média da OCDE, que reúne as economias mais desenvolvidas do mundo.

O Brasil segue na lanterna. É o pior em matemática e tem o terceiro pior desempenho em leitura, atrás do Peru e da Indonésia.

A austeridade fiscal de Putin

Das diferenças entre os dois países, a trajetória das contas públicas também chama atenção.

Desde meados dos anos 2000 a dívida bruta do governo está relativamente estável, e assim se manteve também durante a recessão. No Brasil, os reiterados deficits nos resultados do governo – que hoje gasta mais do que arrecada – e a trajetória de crescimento da dívida são considerados um dos maiores riscos de médio prazo para a economia.

"A austeridade fiscal na Rússia talvez venha da memória do que aconteceu nos anos 90", afirma Jackson, da Capital Economics, referindo-se à crise da dívida russa, quando o país decretou moratória e teve de renegociar a dívida externa.

Putin manteve as torneiras fechadas durante a crise e conseguiu se reeleger neste ano mesmo com a política fiscal contracionista – ou seja, com redução do gasto público –, geralmente impopular.

"No momento atual da política na Rússia, em que Putin governa quase em um sistema autocrático, praticamente não existe oposição e inquietação social. Muitas vezes você tem que engolir e aceitar (as medidas do governo)", diz Zouk, da Oxford Economics.

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O holandês Joop Stoltenborg se lembra bem de quando o primeiro agrotóxico chegou ao sítio de sua família na Holanda, em 1955, quando tinha 15 anos. Era um herbicida que deixava a pele amarelada.

orgânicos
Joop e Tini se conheceram no Brasil, mas ambos vieram de famílias grandes e ligadas à terra na Holanda; juntos, descobriram paixão por orgânicos


"Nós ficamos muito felizes. Arrancar o mato à mão demorava dias e pulverizando, demorávamos apenas algumas horas. Aos domingos, quando eu encontrava a galera, a gente olhava quem tinha as mãos mais amarelas de herbicida. Quanto mais amarelo, mais moderna e pop era a pessoa", disse à BBC News Brasil.

Quando estava com cerca de 40 anos, Joop era, em suas próprias palavras, um "especialista em veneno". "Importei livros com descrições sobre centenas de agrotóxicos: o que era bom para qual praga, a dosagem e o grau de toxicidade de cada um."

Hoje, aos 79 anos, o holandês é um dos pioneiros da agricultura orgânica no Brasil - seu sítio é o sétimo certificado como orgânico no país - e um forte opositor dos agrotóxicos.

Em uma palestra no evento Food Forum, em São Paulo, no último mês de março, ele começou colocando cuidadosamente uma máscara e borrifando veneno em um prato de salada fresca.

"Aqui eu usei só a dose permitida, dentro das normas. Agora quero ver quem quer comer essa comida", desafia.

O Brasil é um dos maiores consumidores de agrotóxicos no mundo, e permite o uso de dezenas de substâncias que já foram proibidas em outros países.

Nas últimas semanas, deputados tentaram algumas vezes votar, em comissão especial, o Projeto de Lei (PL) 6.299/2002, que pretende reformular a lei atual sobre registro, fiscalização e controle de agrotóxicos. A votação na Comissão Especial da Câmara dos Deputados foi adiada três vezes e deve ser concluída nesta terça-feira.

O projeto, proposto originalmente pelo ex-senador e atual ministro da Agricultura Blairo Maggi (PP-MT) e cujo relator é o deputado Luiz Nishimori (PR-PR), também quer concentrar no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) a avaliação toxicológica das substâncias e aprovação do seu uso.

Atualmente, os agrotóxicos precisam ter uma avaliação toxicológica feita pela Anvisa, uma avaliação ambiental feita pelo Ibama e uma avaliação agronômica feita pelo Ministério.

Pela nova lei, a Anvisa e o Ibama ficariam fora do processo e as substâncias seriam integralmente avaliadas por uma comissão técnica que incluiria representantes dos ministérios da Agricultura, da Saúde, do Meio Ambiente, da Ciência, Tecnologia e Inovação e do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

O debate vem causando polêmica entre ruralistas, a favor do PL, e órgãos como Anvisa, Ibama e Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), que se posicionam contra.

Os produtores reclamam da demora na liberação dos agrotóxicos e dizem que, quando o governo autoriza a aplicação, os produtos já estão obsoletos. Opositores, por sua vez, afirmam que a nova medida favoreceria apenas os fabricantes dos químicos, facilitando a entrada de produtos possivelmente danosos à saúde e ao ambiente no mercado.

"Eu não estou tão preocupado com a vinda de novos produtos porque acredito que a tendência em todo mundo é que eles sejam cada vez menos tóxicos", contemporiza Joop.

"Mas o Brasil precisa retirar os agrotóxicos que estão no mercado. Ninguém quer comer comida com veneno, mas as pessoas estão comendo."

Histórias de contaminação

A trajetória de Joop - de entusiasta do uso de químicos na agricultura a ativista antiagrotóxicos - incluiu um período trabalhando em plantações mecanizadas no Canadá e uma viagem de milhares de quilômetros até o Brasil, em um Fusca, com um amigo.

"Viajando pelos países da América do Sul, deu pra ver que o Brasil estava crescendo. Era 1965, e aqui havia muito mais máquinas, estradas, caminhões, a indústria estava começando. Deu para ver um ânimo diferente dos outros países."

A viagem terminou em Holambra 2, colônia holandesa no interior de São Paulo, na casa de um tio que já morava no país. Foi onde Joop conheceu Tini, também holandesa, de família grande e ligada à terra.

Juntos, eles tiveram três filhas e duas netas, e criaram o Sítio A Boa Terra que, em 1981, se tornou o sétimo produtor de orgânicos certificado pela Associação de Certificação Instituto Biodinâmico, a maior do país.

"Decidimos parar de usar agrotóxicos depois que tivemos vários acidentes. O irmão de Tini foi intoxicado pelo vazamento de uma máquina de pulverizar, e o veneno penetrou nos rins. Ele ficou muitos meses na cama e até hoje sofre com problemas renais", afirma.

"Uma vez, estávamos plantando bulbos de flores e colocando um agrotóxico em cima dos bulbos para matar pragas. Atrás de nós vinha um funcionário com um burro, que caiu morto no fim do dia. Tinha cheirado a substância o dia inteiro. Também já tivemos que levar três funcionários para o hospital por intoxicação grave depois de usarmos um veneno misturado às sementes de milho. Tudo isso mexeu muito comigo."

A transição, no entanto, levou cerca de 10 anos, e precisou de uma boa dose de "criatividade", segundo o agricultor.

Pedido de ajuda na internet

Inicialmente, Joop e Tini tentaram - e conseguiram - diminuir o uso de agrotóxicos seguindo uma estratégia chamada manejo integrado de pragas, em que aplicavam agrotóxicos em um ponto específico da germinação.

Isso permitiu, diz o holandês, que eles passassem a aplicar apenas 30% da quantidade de herbicida normalmente recomendada.

"Nessa época também ouvimos falar do uso do lança-chamas para o controle de ervas daninhas, por exemplo, na plantação de cenouras. Pedimos ajuda na internet para saber como usar e uma pessoa da Escandinávia até nos mandou um livro pelo correio."

"Você normalmente semeia a cenoura, e ela começa a nascer em oito dias. Mas 80% das ervas daninhas crescem antes da cenoura. Aí no sexto dia, por exemplo, você passa uma chama que mata essas ervas e depois de uns dias nasce a cenoura tranquilamente, sem mato", descreve.

Hoje, o sítio da família de origem holandesa também produz tomates em estufa usando apenas produtos com certificado orgânico e faz rotação de culturas. A monocultura, segundo especialistas, está associada à necessidade maior de agrotóxicos, já que altera o ecossistema e favorece o surgimento de pragas e insetos.

"Além de plantarmos vários produtos, também deixamos crescer um pouco de mato. Na agricultura convencional existe um fanatismo de combater até o último mato, é quase uma doença."

"Mas se você deixa um pouco, a diversidade de plantas atrai uma diversidade de insetos. E aí você garante que os inimigos naturais das pragas também estejam lá. Se você tem pulgões, terá joaninhas que comem os pulgões", explica.

Ele admite, no entanto, que a produção é mais difícil sem agrotóxicos, e exige mais cuidados e investimento - coisa que muitos pequenos agricultores não estão aptos a fazer.

"É fácil de condenar quem ainda usa (os químicos), mas não é tão fácil de mudar. Eu entendo isso. Ainda falta apoio para investirmos na tecnologia de produzir orgânicos."

Desafio de manter e mudar hábitos de consumo

O setor de orgânicos movimenta mais de R$ 3 bilhões e cresce cerca de 20% a cada ano no Brasil, segundo o Organis - Conselho Brasileiro da Produção Orgânica e Sustentável. Cerca de 70% deste mercado corresponde a alimentos produzidos dessa forma e certificados por organismos credenciados no Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Os outros 30% correspondem a cosméticos, roupas, produtos de limpeza e outros.

Mas, apesar do crescimento, Joop diz que ainda é difícil para pequenos agricultores seguirem esse caminho.

Com 30 funcionários, o Sítio A Boa Terra produz couve-flor, brócolis, abobrinha, batata inglesa, batata doce, beterraba, cenoura, gengibre, inhame, mandioca, milho, pepino japonês, alho, quiabo, rabanete, tomate cereja, tomate e açafrão, além de folhas - diversos tipo de alface, almeirão, escarola, rúcula, couve-manteiga, espinafre, repolho e temperos em geral.

Semanalmente, eles enviam para assinantes uma cesta de produtos orgânicos que tem, além da sua colheita, produtos de parceiros. Mas a manutenção dos consumidores, ele diz, é um dos principais desafios.

"Temos muitos clientes entrando e saindo, mas os que permanecem ainda são poucos. As pessoas também questionam o preço, mas é preciso lembrar que na agricultura convencional, o produtor tem uma máquina que substitui 10, 20, 40 homens", afirma.

Como exemplo, ele explica que um hectare de batata pode ser cultivado por apenas uma pessoa na agricultura convencional. O manejo orgânico, no entanto, requer pelo menos oito.

"Aliás, todo mundo sabe que batata inglesa é o que mais precisa de agrotóxicos para produzir. Só que o Brasil tem raízes bem melhores que essa. A batata doce, em termos de nutrientes, é dez vezes melhor. Se o consumidor passar a consumir mais inhame, batata doce, cará, mandioca, mandioquinha, a mudança não fica impossível. O consumidor ajuda os agricultores a procurar outros produtos."

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